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Marcelo Sguassábia
Coluna: Consoantes Reticentes
Publicado: 30/11/2015 às 09:27:43
Shangri-lá é só aqui
Que ninguém alegue ignorância sobre o castigo que espera quem conhece o lado de lá das nossas montanhas. A ira divina cairá como um raio sobre a cabeça dos desobedientes, assim que chegarem ao topo das fronteiras do reino. Conhecerão a desgraça de uma sociedade injusta e defeituosa, onde prevalece a carência em todos os níveis e onde a alegria é a exceção da regra. Ser curioso, no caso, trará desastrosas e irreversíveis consequências.

Se por aqui nossos orgasmos duram doze miseráveis minutos, lá é ainda pior. Dez segundos, quando muito. Pensem bem: quem é o maluco que vai se dar ao trabalho de se arrumar para sair, conquistar alguém do sexo oposto, adular a presa durante semanas ou meses para tudo acabar no tempo que se leva para dar um espirro?

Sabemos que não há nada de extraordinário em ter 16 narizes. Diria até que, para a maioria de nós, seria muito difícil imaginar a vida com apenas 15, como é o caso de algumas crianças com má formação congênita. Que dirá viver com apenas um? Pois esse é o caso dos povos além-montanhas. O mínimo que se poderia aceitar como razoável seria uns três narizes no rosto e mais uns dois nos ombros ou nas costas - jamais um só, na parte da frente do corpo. A coisa é mesmo estranha e funcionalmente limitada. Além disso, os sovacos tendem a ficar peludos se não forem raspados, as unhas precisam ser cortadas de vez em quando e há quatro dentes que nascem apenas para serem extraídos.

Pela enfadonha e inútil repetição de tarefas, a rotina deles dá pena. Saem de casa toda manhã, se metem em filas intermináveis de automóveis, passam raiva o dia inteiro, se estressam, amaldiçoam patrões e governos, entram de tardezinha em outro comboio de carros para voltar à casa e fazer exatamente as mesmas coisas no dia seguinte. Tudo isso para conseguir juntar um dinheirinho e passar uma semana por ano do mesmo jeito que nós passamos a vida toda: deitados à sombra dos coqueiros, comendo camarão e tomando caipirinha.

Mais ou menos por essa época, nossos desafortunados vizinhos comemoram o réveillon como se algo, finalmente, fosse mudar. Esvaziam seus sacos de cólera e frustração à beira-mar, para enchê-los de novo até a boca nos doze meses seguintes. E assim sucessivamente, até morrerem em seus pijamas, aos cuidados de desconhecidos e com incontinência urinária. Sim, porque estranhamente esses humanoides vão perdendo saúde com a idade, e seus órgãos não se reconstituem como os nossos. O resultado é que não chegam nem mesmo aos 150 anos, idade em que nós celebramos o início da adolescência. Agora, me digam: para viver tão pouco e tão mal assim, vale a pena o trabalho de nascer?
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