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Marcelo Sguassábia
Coluna: Consoantes Reticentes
Publicado: 23/06/2015 às 11:51:10
Vende-se ou aluga-se
Não vou negar: houve tempo em que o dinheiro jorrava da minha conta, tinha fila de gerente de banco na minha porta oferecendo linhas de crédito e aplicações mirabolantes. Parentes até então desconhecidos apareciam para pedir dinheiro emprestado.
Do fundo do quintal do Josias, onde tinha uma bancada velha, uma tela de silk e duas latas de tinta de marca vagabunda, fui fazendo fortuna rápido.

Comecei vendendo as placas e faixas de "Vende-se" e alugando as de "Aluga-se". Depois a demanda se inverteu: passei a vender mais as de “Aluga-se” e a alugar mais as de “Vende-se”. Coisas do mercado. 

O negócio foi dando certo e veio a diversificação, com a incorporação do modelo que durante quase duas décadas foi o carro-chefe da empresa: a faixa "Passo o ponto". Quanto mais empreendedores davam com os burros n'água, mais eu lavava a égua. Me sentia um agiota, estava ficando rico com a falência alheia. A capacidade instalada, na época com sete máquinas de última geração e quarenta funcionários, não dava conta dos pedidos. Lembro que tive que programar quatro turnos de produção, com gente trabalhando de madrugada. Pra se ter uma ideia, uma única loja mudava de ramo e de dono umas quinze vezes por ano. E eu ganhava de todo lado: primeiro com a faixinha do falido comerciante tentando se livrar do mico, e depois com faixas e mais faixas das imobiliárias anunciando o imóvel. Não raramente eram várias imobiliárias num imóvel só... era faixa que não acabava mais para fazer, eu chegava a recusar encomenda.

De uma hora para a outra, a situação começou a ficar economicamente muito mais complicada e passei a trabalhar com consignação. O cliente só pagava a placa depois de alugar ou vender o que tivesse para negociar. O formato teria tudo para ser um sucesso, mas quase me quebrou completamente - já que ninguém alugava e ninguém vendia, mas todos botavam as minhas placas e faixas nas portas dos seus comércios, sem pagar um centavo por elas. 

Hoje, a penúria chegou a tal ponto que minhas vistosas e eficientes placas são humilhantemente substituídas por uma pichação do proprietário no muro, feita com caiação rala emprestada do vizinho... é triste, muito triste olhar esses amadores das letras emporcalhando a cidade.

Aproveitei o último pedaço de pano e um restinho de tinta no  fundo da estamparia e fiz a derradeira faixa de "Vende-se", para colocar aqui na fachada do meu negócio. Pensei em escrever "Passo o ponto", mas desisti. A frase era maior e a tinta não ia dar.
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