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Marcelo Sguassábia
Coluna: Consoantes Reticentes
Publicado: 11/05/2015 às 14:45:27
Sob Hipnose
Este texto é do Marcelo e não é. Escrevo em terceira pessoa porque aqui não é ele escrevendo e sim eu, seu analista, descrevendo. Ou melhor, anotando o que ele fala em transe hipnótico. Ideia dele, bem entendido. Sabia do risco que estava correndo, e mesmo assim quis a coisa em estado bruto.

Cinco... quatro... três... dois... um... Definitivamente, essa contagenzinha de relaxamento profundo em nada me inspira. Doutor, essa coisa desgastada não vai me dar um texto novo no sábado. Não sei por onde começar mas sei que não será por esse labirinto de hera, cheio de portas que não levam a lugar nenhum, cotovias flamejantes e areias movediças. 

Ao que parece, hoje ele está sem assunto. 

Problema seu amarrar tudo isso, Dr. Matos. Eu não tenho obrigação, aqui, de falar coisa com coisa. Agora, você sim, tem em costurar um sentido nessas associações que faço. Não vou dizer por onde vago agora. Você não acreditaria. Sujeito que escreve e faz análise dá nisso. Sujeito que escreve tem que ficar só na análise sintática, que é muito mais negócio.  

Ele está racionalizando o processo, desse jeito fica impossível. Usa a análise para falar da análise.

Você é um excremento, doutor Matos. Um titica com diploma pendurado na parede, legítima personificação da fase anal. Seu trabalho me arranca dinheiro e não traz resultado, estou aqui há anos e fico andando em círculos, dependente de você e prisioneiro dessa sala. Dessa cela. Seu pai castrador bem que podia ter te capado de uma vez para que você não estivesse aqui, se achando capaz de ajudar os outros. 

O que me deixa estarrecido é que ele está sendo sincero, hipnose não é bem um alteração no estado de consciência, é consciência no grau mais alto. É atenção focada, ele está sabendo muito bem o que diz. 

Esse seu nome, Matos, cheira a sexo. Mato onde se faz sexo. Os pelos do púbis são matos. Mata-se a vontade. Mata-se o desejo. Então sexo não é fazer amor, mas celebrar a morte. É amor à morte. Credo.

Isso é impublicável. Depõe contra mim, pessoal e profissionalmente. Desconsiderem.

Aproveitando o segundo domingo do mês, mamãe vai bem, Doutor?
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