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Paulo César Tamiazo
Coluna: Revivendo a História
Publicado: 22/07/2014 às 20:05:31
A propósito das “Amoreiras”: as instalações na área da sericicultura em Cordeirópolis antes de sua doação à Prefeitura Municipal (1952-1956)
Em outras oportunidades, pudemos abordar o processo de transformação da propriedade rural da família do Capitão João Lucke e outros no estabelecimento vinculado à S.A. Indústria de Seda Nacional, posteriormente comprada pelas Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo e finalmente encampado pelo Governo do Estado, transformando-se no que seria a Estação Experimental de Sericicultura de Cordeirópolis.

Infelizmente, a cultura de amoreiras para produção de seda, por influência da imigração japonesa, transferiu-se para outro local do Estado, fazendo com que a estrutura montada na década de 1940 rapidamente caísse em desuso. 

Desde 1952, o Governo do Estado tentou equacionar o problema, solicitando a autorização da Assembleia Legislativa para a venda das propriedades, situadas em Cordeirópolis e Cosmópolis, anteriormente destinadas ao aprimoramento da seda, processada através das empresas de fiação, torção e tecelagem na cidade e região. 

Em 1954, a classe política local conseguiu, através do Governo do Estado, a doação pura e simples da área situada de frente para a Rua Carlos Gomes, entre a Rua Guilherme Krauter (antigamente Rua Nova da Paz) e a Rua 13 de Maio, onde se definiu que, na quadra em frente à então Praça João Pessoa (atual Jamil Abrahão Saad), só seriam vendidos lotes para particulares. 

A mobilização do Poder Público está expressa em carta enviada ao Governador do Estado, sobre a situação do local. Em 10 de novembro de 1951, o então prefeito Aristeu Marcicano dirige-se ao Governador do Estado, dizendo que a prefeitura tinha recebido a visita de uma comissão, que informou que o Poder Público iria vender a área. Destacou que parte do terreno estava dentro do perímetro urbano do município, constituindo-se, então, uma “zona natural de expansão”. 

Assim, segundo o Prefeito, “estes terrenos sempre foram óbice à expansão natural da cidade”, mesmo dotados de luz, água, guias e sarjetas; que nos terrenos de propriedade do Estado estavam incluídos antigos trechos das Ruas Santos Dumont, José Bonifácio e Saldanha Marinho, com largura de 12 metros e comprimento de 52, 43 e 60 metros, respectivamente. 

Por fim, o Prefeito, pediu em doação as áreas ocupadas pelas cinco quadras e ruas projetadas, para criação de um loteamento e instalação de repartições públicas e instituições beneficentes, considerando-a “uma recompensa ao Município, que durante anos passou sem arrecadação das taxas e impostos desses terrenos e dos imóveis neles localizados”. 

Segundo Aristeu, “seria consagradora medida administrativa, entregar ao povo o que é do povo. O loteamento se impõe, por preço popular, eliminando-se o intermediário, diretamente do Governo Municipal ao povo.”

Mesmo assim, neste local se instalaram: a S.D.R. Nosso Clube, posteriormente encampada pelo Cordeiro Clube, cujo terreno foi revertido à Prefeitura em 1962; o Banco Itaú, no local desde 1969; o Banco Central dos Municípios, que com sua quebra gerou revolta popular e noticiário nos jornais do Estado; além do espaço para os profissionais liberais: o consultório do Dr. Luiz Cardinalli, médico, e do Dr. Antonio Luiz Cicolin, advogado. Ao seu lado, funcionou durante algum tempo a Cooperativa de Consumo, efetivamente sucedida por um supermercado ativo até a década de 1990. O resto da área foi transformado em residências para pessoas físicas. 

Neste ponto, vamos ressaltar a descrição, feita pelo Projeto de Lei nº 1.353, de 1952, de autoria do então Governador do Estado, em que se encaminha o projeto visando resolver “a crise de habitação existente”, mas com o objetivo complementar: reservar área para instalação de indústrias. Para as políticas industriais em Cordeirópolis, veja nosso texto anterior sobre o assunto. 

O terreno, de mais de 10 alqueires, tinha as seguintes configurações: 

“Um terreno de forma irregular, com benfeitorias, cuja área, calculada analiticamente, é de 289.148,00 m², situado na cidade de Cordeirópolis, onde se acha instalada a Estação Experimental de Sericicultura, do Serviço de Sericicultura, da Secretaria da Agricultura (...); o perímetro começa no cruzamento da cêrca divisória com propriedade que consta pertencer a José Botião, com a cêrca da Companhia Paulista de Estradas de Ferro (...) [chegando até] um muro dividindo com a rua Toledo de Barros (...) no canto de uma casa, e dai (...)  segue pela face da casa referida e por outro muro (...) onde encontra o alinhamento leste da rua 13 de Maio, e daí, por êste alinhamento, (...) chega no fim da rua 13 de Maio, de onde (...) encontra a cêrca divisória com propriedade que consta pertencer aos Irmãos Espadotim, e daí por esta cêrca (...) encontra a cêrca da Estrada Municipal, pela qual continua (...); e (...) [por fim] encontra o valo que divide com terras que constam pertencer a José Botião, e pelo qual continua (...) onde termina o valo e começa uma cêrca a qual dividindo ainda com o mesmo confrontante, (...) [chega enfim] ao ponto de partida (...)".

Todo o processo de votação e aprovação da doação, além de sua transformação na futura Vila Nova Brasilia, já foi tratado em outro artigo. O que queremos destacar hoje são as benfeitorias que estavam abandonadas, de propriedade do Governo do Estado, e que seriam depois destruídas para implantação do parcelamento.

Por princípio do meio governamental, toda doação de áreas deve ser precedida de uma avaliação e de autorização legislativa, o que aconteceu no caso. Na primeira versão desta propositura, o Projeto de Lei nº 1363 (e 1364, com exatamente o mesmo texto) de 1952, a comissão, composta pelos Engenheiros Agrônomos Modesto Lopes Lima, Linneu Ferraz de Arruda e Sylvio Moreira, este o principal nome da citricultura no Estado, homenageado no Centro APTA Citros de Cordeirópolis, indicou que, a área que iria a leilão era formada de duas partes: “uma área de 50.000 m2 dentro do perímetro urbano da cidade de Cordeirópolis; outra, de 255.310 m2, na zona suburbana e rural”.  A primeira parte, como sabemos, foi doada em 1954, e continha oficialmente 27.652 m2, ou seja, mais de um alqueire. 

Na descrição dos bens constantes da propriedade solicitada, encontram-se praticamente os mesmos imóveis comprados pela S.A. Indústria de Seda Nacional, depois transferidos integralmente ao Estado na década de 1940: “duas casas geminadas, velhas, com frente para a Rua Toledo Barros; três casas geminadas, velhas, com frente para a Rua Carlos Gomes; duas casas geminadas, velhas, com frente para a Rua Carlos Gomes; duas casas simples, velhas, com frente para a Rua Carlos Gomes; 2 casas geminadas velhas, no interior do terreno, em más condições; uma sirgaria coberta de telha medindo 32 x 8,20 metros; uma sirgaria coberta de telha, medindo 12x6 metros; um paiol rústico; um rancho rústico”. 

Os moradores daquela época, e que puderem confirmar com seus depoimentos, poderão dar conta da existência e utilidade destas estruturas. Conforme já dissemos, algumas casas foram compradas pelos representantes da S.A. Indústria de Seda Nacional e, pela impressão, não foram demolidas. Só foram aumentadas as “sirgarias”. 

Não conseguimos encontrar fotos que mostrassem como eram estas instalações, mas a partir da descrição de um estabelecimento padrão, feita pelo Prof. Ronald Zanetti, da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais, podemos imaginar o que encontraríamos na antiga Estação Experimental de Sericicultura de Cordeirópolis: 

“Sirgaria ou barracão é a construção destinada à criação das lagartas de 3ª. e 5ª. idades, emboscamento, encapsulamento, colheita, limpeza, seleção e embalagem dos casulos. A construção das sirgarias poderá ser feita com paredes de alvenaria, madeira, barro, bambu, sombrite ou sapé; piso de cimento ou chão batido; telhado de telhas de barro, sapé, amianto ou zinco; e janelões de sapé, bambu, sombrite, saco plástico ou madeira” (http://www.den.ufla.br/)

Continua o material: “No interior da sirgaria devem ser construídas as esteiras ou camas de criação, que são locais em que são colocadas as lagartas para serem criadas. (...) Geralmente se constroem apenas as laterais das camas com madeira ou tijolo, sendo que as lagartas são colocadas sobre jornais, sobre o piso. Algumas camas podem ser colocadas sobre uma armação de madeira, bambu, etc., (...). Acima das camas são colocadas as armações de arame presas ao teto, que suportarão os bosques.”

O texto didático do prof. Ronald descreve outras estruturas relacionadas, como o “depósito de folhas” e o “depósito de bosques”, mas como a avaliação do local não identificou a existência destas instalações na antiga Estação Experimental, optamos por não descrevê-las.

Após muitos anos de pesquisas, e por falta de acesso a materiais que estão agora na internet, graças à Imprensa Oficial do Estado e à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, pudemos finalmente entender como se processou a passagem deste território desde a sua compra pela Indústria de Seda Nacional até à incorporação ao patrimônio municipal, para a formação da Vila Nova Brasília. Vale lembrar que o ponto de partida foram as escrituras do Tabelionato de Notas e Protestos de Cordeirópolis, que remonta a 1899, cujas pesquisas na década de 1990 nos permitiram este conhecimento. 

Encerramos este texto com uma homenagem ao Sr. Octavio Franchini, um dos funcionários da antiga estação experimental, onde encontramos detalhes que casam com nossas pesquisas nos últimos anos. Diz a biografia, que fez parte da justificação do projeto de lei aprovado, que denominou uma das ruas do Bairro do Cascalho em sua homenagem: 

“Seu primeiro emprego foi na Companhia Paulista de Estrada de Ferro. Trabalhou  aproximadamente um ano, depois se transferiu  para a Indústria de Seda, pertencente ao Grupo Matarazzo que, logo depois, foi encampada pelo Governo do Estado de São Paulo, administrada pela Secretaria da Agricultura, através do Setor de Serviço de Sericicultura.

Esta  indústria  era a  famosa Gleba das Amoreiras, local este muito conhecido em Cordeiro que tinha como limites o viaduto da Companhia Paulista e quase toda extensão da Rua Carlos Gomes até a linha férrea. Nesta gleba cultivavam-se amoreiras e com suas folhas, alimentavam os famosos bichos da seda, que se transformavam em casulos e eram entregues nas indústrias do ramo para extração da seda.

O Sr. Otávio Franchini ficou experiente no cultivo de amoreiras e também na criação do bicho da seda até que em 1954, foi extinto este setor e a gleba encampada pela Prefeitura Municipal, que, por sua vez, transformou-a em Loteamento Popular.

Após ser extinto este setor, o Sr. Otávio,  nada mais tendo a fazer aqui, foi novamente transferido para o Departamento de Criação do Bicho da Seda na vizinha cidade de Limeira, até que em 1967 aposentou-se. Depois de anos de trabalho, o Sr. Otávio dedicou-se especialmente à sua família e a cidade de Cordeirópolis, que escolheu para viver, até seu falecimento em 1990.”
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