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Paulo César Tamiazo
Coluna: Revivendo a História
Publicado: 10/02/2014 às 10:40:10
As ordens religiosas em São Paulo e sua ação nos primeiros anos do Bairro do Cascalho
Nos próximos meses, iremos continuar nossa recuperação dos aspectos relevantes da história de Cascalho, no ano em que comemoramos os 130 anos da criação da legislação dos Núcleos Coloniais.

Baseando-se na obra de Riolando Azzi, “A Igreja e os Migrantes”, vamos, ao mesmo tempo, recuperar dados sobre Cascalho existentes nesta obra, e informações que permitam recuperar fatos da época em que estas coisas se passaram. 

Primeiramente, vamos recuperar a situação que motivou a criação da “Congregação dos Missionários de São Carlos”, destinada a atender os imigrantes italianos no exterior, conforme a motivação de sua fundação, pelo bispo de Piacenza, Giovanni Battista Scalabrini.

Segundo a brilhante obra que iremos seguir e destacar, esta congregação foi fundada em 28 de novembro de 1887, baseando-se no impacto da emigração italiana para o Brasil, descrita como um fenômeno “que esvaziava províncias e dioceses” daquele país. Segundo Scalabrini, o objetivo principal da congregação era “levar o conforto da fé e o sorriso da pátria” aos que estavam longe de sua terra natal. Juntamente com a Congregação, foi criada também a Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeu, destinada às mulheres. 

O meio no qual a ordem escalabriniana surgiu contrapunha a doutrina espalhada a partir de Roma, chamada de ultramontanismo, à realidade do catolicismo brasileiro, resumido, no texto de Azzi, a um conjunto de “padres leigos e beatas”, em contraponto às estruturas da igreja romana. 

O ultramontanismo, segundo uma definição da internet, “representou, na História da Igreja Católica, a derradeira e mais desesperada reação contra todas as transformações que o mundo ocidental vivenciou desde a Reforma e do Renascimento, passando pelo Iluminismo, pela Revolução Francesa e pela consolidação dos fundamentos do Estado Democrático e Laico do século XIX; (... um) esforço no sentido de se resgatar o primado de Roma sobre o mundo ocidental, reafirmando a autoridade do papa e dos fundamentos eclesiásticos estabelecidos pelo Direito Canônico.

O texto utilizado neste trecho indica que o ultramontanismo “não é apenas uma continuação da reação desencadeada pela Contrarreforma do século XVI, mas, muito mais do que isso, um desdobramento (...), pois ela não se insurge apenas contra o Protestantismo, mas também contra o modernismo, a maçonaria e o estado laico. (...)

O ultramontanismo foi definido como um movimento que propunha a volta dos fundamentos institucionais e políticos do catolicismo medieval e que, por isso, contemplava a Idade Média como referencial de sociedade e de fé, olhando para este momento histórico onde não somente a unidade da Igreja, mas também a unidade política e a paz social estavam plenamente asseguradas. (...) Os ultramontanos italianos atacaram o modernismo e o estado laico, razão pela qual os ultramontanos da Itália lutarão contra o Rissorgimento e a formação do estado italiano sob a bandeira da laicidade.

Outro ponto destacado por Azzi no período em que se inicia a análise da relação da Igreja Católica com os (e)migrantes é a síntese da situação encontrada no “Brasil real”: além da falta de membros para o clero e para as ordens religiosas, a realidade mostrava a existência de “ministérios nem sempre avalizados pela hierarquia” católica. 

Explicando de forma resumida o contexto da emigração italiana, Azzi ressalta que o processo de industrialização do Norte (região que faz parte o Vêneto, de onde vieram a maioria dos imigrantes para o Cascalho) gerou desemprego e, na implantação do capitalismo moderno, a transformação da situação dos trabalhadores rurais, de “servos da gleba” em agregados ou peões, gerando o empobrecimento da área rural. 

Falando um pouco de Scalabrini, Azzi lembra que ele nasceu em 1839, sendo sagrado Bispo de Vicenza em 30 de janeiro de 1876, com a idade de 36 anos. Segundo o autor, Scalabrini defendia uma conciliação da Santa Sé com o governo italiano pós-unificação. A Cúria Romana, que auxiliava ao governo do Papa, era considerada ultramontana e anti-liberal, gerando uma oposição entre a Pátria italiana e a fé católica. 

Assim, o catolicismo italiano era intransigente, defendendo uma ortodoxia cristã, baseada na fé, na tradição e na moral, em absoluta união e adesão ao Papa. Scalabrini, no entanto, estava alinhado aos chamados católicos conciliadores e liberais moderados, combatendo a influência dos liberais radicais e dos socialistas. Por defender a neutralidade, e os direitos de personalidade e de livre determinação, procurou exercer seu trabalho pastoral de outra forma.

Ressalta o livro que entre 1869 e 1879, Scalabrini preocupou-se em encaminhar, juntamente com os emigrantes, cartas assinadas por ele solicitando apoio ao clero do local onde os italianos seriam recebidos. Além da motivação econômica já citada, dois outros motivos incentivavam a imigração: o recrutamento para as guerras coloniais e a cobrança de impostos. 

Em julho de 1887, Scalabrini fundou a “Sociedade San Rafaele”, cujo objetivo era assistir e orientar emigrantes, receber correspondências e realizar ações necessárias na ligação com os familiares que ficaram, além de receber os emigrantes nos portos. Posteriormente, também criou a Pia Associação de Missionários, que tinha por objetivo atender as necessidades dos emigrados, realizando particularmente a catequese, pregação e administração de sacramentos. 

Quanto aos membros, estes deveriam ser sacerdotes de mais de 30 anos, com três anos de experiência, que deveriam entregar seus bens pessoais à associação, subordinando-se aos bispos locais. Os interessados em fazer parte da associação deveriam ter conduta irrepreensível, sendo necessário um “atestado de boa conduta” para sua aceitação.

Analisando localmente a ação dos precursores, Azzi indica que a ação das ordens religiosas no país tinham principalmente o objetivo de “preservar os imigrantes italianos da influência brasileira” e sua ação foi sentida, na prática, inicialmente com o Orfanato Cristóvão Colombo, em São Paulo.

Falando sobre a imigração italiana em si, destaca-se a divisão realizada por Zuleika Alvim, em que define como minoritária a presença italiana no Brasil no período de 1870 a 1885. A partir desta época, o Brasil passa a ter uma política imigratória, pelo menos no Estado de São Paulo, baseada fundamentalmente na atração do imigrante italiano, o que foi até 1902, quando foram decretadas restrições de encaminhamento ao Brasil. Em seguida, a imigração passou a se direcionar para os Estados Unidos, aproximadamente até a década de 1920.

Segundo os autores citados, num período de cinco anos, duzentos mil italianos foram beneficiados pela legislação paulista que lhes oferecia a viagem paga; neste momento, no início da ação das ordens religiosas no Estado e no País, houve a constatação das dificuldades para o exercício da atividade entre os imigrantes, além das barreiras oferecidas pelo clero secular brasileiro. Contribuiu para isso, segundo alguns relatos das próprias ordens religiosas, a “má conduta atribuída ao clero secular originário do sul da Itália”, que foram considerados por muitos como “lobos ao invés de pastores”. 

Destacamos a seguir um trecho de relatório da representação de uma ordem religiosa no Brasil, que diz: “Temos aqui certos padres italianos que nos desonram. Outro dia, aqui mesmo na cidade, um certo Santoro uniu-se civilmente com uma menina de 17 anos”. 

Continua a obra de Riolando Azzi a dar um panorama do contexto em que a atividade religiosa em favor dos migrantes se estabeleceu no país, e especialmente no Estado de São Paulo. Mais uma vez se cita o “mau exemplo dos padres italianos”, cujo principal interesse, no Brasil, parece ser “ganhar dinheiro ou levar uma vida escandalosa”. 

Em dois capítulos do segundo volume de sua obra, Riolando Azzi destaca a ação dos missionários escalabrinianos em Cascalho e Cordeiro. Ao iniciar o capítulo, o autor descreve Cascalho como “um pequeno centro colonial onde os italianos, vindos quase todos do Vêneto, se haviam estabelecido desde fins do século passado, dedicando-se ao cultivo da terra. Em 1898, os colonos construíram na localidade uma pequena capela.” 

Como se percebe, fatos muito importantes da história dos núcleos coloniais e especialmente da história de Cascalho são ignorados pelo autor, como a lei que criou o sistema, de 1884; a presença inicial de imigrantes dos países nórdicos, portugueses e brasileiros, o que contrariava a própria legislação criadora; a autorização do Bispo de São Paulo, já em 1887, para a criação de um cemitério; a solicitação dos moradores para a instalação deste mesmo cemitério, de uma igreja e uma escola pública e a emancipação do Núcleo Colonial. 

Neste ano, também devemos lembrar os 110 anos da presença da ordem escalabriniana em Cascalho, que durou quase cinquenta anos, baseado no que conta o autor: 

“Três razões principais contribuíram para que os escalabrinianos lá se estabelecessem a partir de 1904: em primeiro lugar, o fato de estar a localidade no percurso que os religiosos faziam em suas visitas às colônias italianas (...). Em segundo lugar, o Curato oferecia rendas mais ou menos fixas, possibilitando assim que se enviasse um auxílio à Casa-Mãe de Placência, de onde vinham os recursos humanos para São Paulo. Por último, a aceitação do curato era uma forma de colocar ali o Padre Dotto, já cansado da atividade missionária itinerante.” 

Em 1906, a ligação da ordem com Cascalho é explicada em relatório do provincial ao superior geral: “a paróquia ou Curato de Cascalho foi estabelecida formalmente pelo falecido [referindo-se a Scalabrini]”. Dois anos antes, segundo Azzi, as próprias famílias de Cascalho haviam solicitado a fixação de um pároco. Em carta, o responsável pelo Curato de Cascalho assinala: “Esta população não é grande, nem rica, mas de muito bom coração. Na maioria são italianos vênetos. Há uma colônia portuguesa e alguns brasileiros.” Cascalho, segundo afirmação do autor, deveria contar à essa época com 2.000 habitantes, número que me parece exagerado. 

Dom Giovanni Scalabrini, como já soubemos de outros artigos, visitou Cascalho em agosto de 1904, por ocasião de sua passagem por São Paulo. Em dados do volume anterior, descreve-se o itinerário do fundador da ordem começando pelo Rio de Janeiro, em julho, seguindo-se depois para São Paulo e para o interior. 

A impressão do superior foi destacada na correspondência, onde se diz que ele teria ficado muito “edificado” pelo acolhimento e concurso do povo e “despertou muito entusiasmo por sua afabilidade e doçura”. Disse também em público que “parecia estar em uma paróquia da Itália”. 

A opinião do padre responsável por Cascalho, no prazo de cinco anos, muda radicalmente. Em carta, o provincial informa ao seu superior: “Padre Pedro Dotto (...) está cansado de ficar em Cascalho. Diz que o povo tornou-se ingrato e não corresponde mais como antigamente (...)” 

Em seguida, comenta-se sobre a chegada e os anos iniciais do trabalho do Padre Luiz Stefanello: “A 1º de outubro de 1911, assumiu a capelania o Padre Luiz Stefanello, o qual chegara ao Brasil em 1907. (...) À diferença de Pedro Dotto, Stefanello procurou adaptar-se ao ritmo de vida da população, quase toda de origem rural, exigindo dela apenas o que era possível”. 

Continua o texto: “A 2 de agosto de 1914, Cascalho foi erigida à categoria de paróquia, recebendo Stefanello a faculdade de celebrar mensalmente nas seis fazendas que foram incluídas no seu território. A população era então calculada em 3.500 habitantes.” Mais uma vez, o número me parece bastante exagerado. 

À frente, um ponto interessante: “Stefanello passou a pregar em italiano para as pessoas mais velhas, como pôde observar neste mesmo ano o representante da associação Italica Gens, Eugenio Bonardelli. A Italica Gens foi uma associação criada para dar assistência religiosa aos emigrantes italianos na América e na África, preocupando-se também com as condições sociais e econômicas dos emigrados e, especialmente, “a defesa da italianidade nos países transoceânicos” . Em visita ao Cascalho, Bonardelli registra as seguintes informações: 

“Cascalho (..) dista cerca de meia hora de trole de Cordeiro, importante estação da Companhia Paulista. (...) O menino que conduz o trole é filho de colonos vênetos, e fala o dialeto misto de português e vêneto. Não sabe ler nem escrever, como infelizmente a maioria dos filhos dos nossos colonos. Com relação à instrução se opera entre eles um verdadeiro processo de involução e regresso: seus pais, que vieram da Itália nos últimos quinze anos, graças às benéficas leis italianas sobre a instrução obrigatória, geralmente sabiam ler e escrever. Os filhos não.” 

Em outra parte, o visitante destaca que “nos dias de festa a vasta praça do povoado se enche de gente; são italianos que chegam a cavalo ou em trole dos campos. (...) Em Cascalho, porém, falta uma escola. Esta é a preocupação das boas pessoas que têm em mente os interesses dos nossos compatriotas”. Por mais precária que fosse, havia escola pública de primeiras letras em Cascalho desde 1895. Mesmo que não atendesse a todos, o que dificultava o seu acesso era a participação de toda a família no trabalho da lavoura, e os problemas para o prosseguimento dos estudos em graus superiores. 

Ainda assim, o autor destaca que a vida religiosa foi mantida com o mesmo fervor nos anos seguintes. Em 1916, dois padres redentoristas vieram pregar missões na localidade, com grande resultado (...) Lançou-se, então, a ideia da construção de uma igreja-mor, de alvenaria.” 

O capítulo dedicado a Cascalho, além de ressaltar os elogios recebidos pelo paroquiato de Stefanello, vindos do Bispo e do superior geral dos Escalabrinianos, se encerra com a frase: “A presença escalabriniana em Cascalho constituiu, sem dúvida, um elemento importante para a fixação dos colonos na região”. 

Em uma próxima oportunidade, baseando-se nos volumes escritos por Riolando Azzi, sobre a Igreja e os migrantes, iremos recuperar informações sobre Cascalho no período compreendido entre a década de 1920 e o fim do paroquiato de Stefanello no bairro.
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