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Paulo César Tamiazo
Coluna: Revivendo a História
Publicado: 29/08/2013 às 11:29:57
As fábricas de fogos de artifício em Cordeirópolis (1904-1928)
Nesta oportunidade, vamos abordar o período das fábricas de fogos em Cordeirópolis, que na época era chamado de Distrito de Paz de Cordeiro. Para isto, utilizaremos as referências a escrituras pesquisadas na década de 1990 no Tabelionato de Notas e Protesto de Cordeirópolis, um dos repositórios mais importantes da memória da cidade. 

Graças à disponibilização de jornais antigos na internet, como o “Estado de São Paulo”, e o “Correio Paulistano”, este através do trabalho da Biblioteca Nacional, pudemos recuperar alguns fatos relacionados às empresas pirotécnicas em funcionamento naquele período.

A referência mais antiga encontrada é uma escritura de compra e venda, onde Ramiro Jacintho da Silva e sua mulher Felizarda Maria da Conceição vendem, em 17 de outubro de 1904, uma área de “seis braças”, ou seja, aproximadamente 14 metros, por 20 braças (aproximadamente 44 metros), na Rua 13 de Maio, a Alexandre Baroni, que declarou por profissão “pyrothecnico”, isto é, o profissional fabricante de fogos de artifício. 

Por referências posteriores, estimamos que a propriedade considerada estava situada na área entre a Rua José Moreira e o Estádio Municipal “Dr. Huberto Levy”, mas não podemos certificar que aquele era o local onde os fogos eram fabricados. Naquela época, este terreno poderia ser considerado um dos “subúrbios” da cidade, localização necessária devido ao risco de explosões.

O problema não tardou a ocorrer: uma pequena nota no “Estado de São Paulo” de 21 de agosto de 1911 registrou a morte de José Mendes, “um dos operários feridos gravemente na explosão ocorrida ontem em Cordeiro, na fábrica de fogos de A. Barone & Irmão”. 

Mais algumas vezes os Baroni foram notícia nos jornais disponibilizados. Uma vez, em 3 de julho de 1913, matéria paga intitulada “Agradecimento ao Povo de S. Paulo”, assinada pela firma “A. Baroni & Irmão, estabelecida na Villa de Cordeiro, com  grande fábrica de fogos de artifício”, agradece à população da Capital pelo bom acolhimento que tiveram seus produtos, dizendo que “prometem voltar a S. Paulo nos próximos anos, para servir a distinta freguesia”. O importante desta nota é a localização exata de seu estabelecimento comercial: “Villa de Cordeiro, Rua Treze de Maio, nº 9 e 11 (caixa postal 5)”. 

Desde as primeiras pesquisas, sabíamos que a primeira numeração das casas do distrito obedecia ao critério “lado par, lado ímpar”, em que todas as casas de uma parte das ruas seguiriam os números pares e outra, os ímpares, sistema substituído pelo atual na década de 1940, quando os números das casas são definidos pela distância em metros, do início do terreno onde a casa foi construída, ao início da rua. 

A explosão da fábrica de fogos continuou a gerar consequências nos anos seguintes: o “Correio Paulistano”, de 16 de março de 1916, na área do Fórum Criminal da Capital, destacou o processo contra Gonçalo Mendes, por “crime de injúria impressa”, a partir da publicação no “Fanfulla”, famoso jornal da comunidade italiana de S. Paulo, de artigo dirigido aos funcionários da fábrica de fogos de artifício de “A. Baroni & Irmão, instalada em Cordeiros”. Não sabemos qual o fim deste processo, mas ele pode ter contribuido para o que se verá a seguir. 

Aproximadamente quatro anos mais tarde, a firma “Alexandre Baroni & Irmão” adquire uma área com aproximadamente 2.421,5 m2 em 9 de agosto de 1917, pelo valor referencial de um conto de réis. A área tinha início na Rua Saldanha Marinho, confrontando com terras de Francisco Mascarin, Antonio e Napoleão Fontanari, Carolina das Neves Vieira e Giocondo Negro ao norte; ao leste, confrontava com José Felisberto; ao sul, com a Fazenda Ibicaba e a oeste com Carolina das Neves Vieira. 

Mais uma vez, está clara a necessidade de estabelecer uma manufatura deste tipo nas franjas do então núcleo urbano; mesmo que haja referências a algumas casas da rua, especialmente ao norte, os limites com a Fazenda Ibicaba deixam claro que eles precisavam estar longe da população, especialmente após o acidente divulgado pela imprensa estadual. 

Não se sabe claramente se a firma que colocou o anúncio no “Estadão” teria falido em função do acidente, mas ela vendeu em 14 de janeiro de 1919, uma casa “com 3 portas e 1 portão, num terreno de 22 metros (o equivalente a 10 braças) por 44 de fundo, situada na Rua Toledo Barros, identificada nesta última escritura como “antiga Rua da Estação”. 

O terreno citado confrontava com Maria da Cunha, José da Cruz e a própria firma A. Baroni & Cia. e a propriedade foi vendida para Antonio Ferreira Gaio, industrial e líder político da época. A escritura identifica esta firma como “sucessora de A. Baroni & Irmão”. A última referência do período aos Baroni é uma escritura de distrato, em que a firma, situada em São Paulo, revoga, em 22 de fevereiro de 1919, a escritura de 23 de julho de 1917, que contratava, para prestação de serviços de pirotécnico, o sr. Michel Albanese. 

A última referência à presença dos Baroni em Cordeiro, de acordo com os documentos preservados, é uma escritura de venda e compra, em que comparecem Alexandre Baroni e sua esposa Eliza Baroni, residentes em Campinas e seu irmão Ettore Baroni, acompanhado de sua esposa Maria Baroni, residentes em Cordeiro, que vendem a Antonio Moreira da Cunha, em 16 de dezembro de 1924, um terreno de 6 por 20 braças, ou seja, 13 metros por 44, situado na Rua Treze de Maio, de frente ao Largo da Matriz, que confrontava com Archangelo Panhoca, Maria Martins da Cunha e Antonio Ferreira Gaio. Neste terreno havia um rancho de tijolos coberto de telhas e estava instalada uma oficina mecânica.

Ao lado dos Baroni, comparecem por alguns anos, para fazer parte da história da cidade, os senhores Mariano Del Giganti e Francisco Chinnici. Em 4 de abril de 1908, Mariano Del Giganti compra, de Joaquim Ferreira Vieira e sua mulher Carolina das Neves Vieira, um terreno de 4 braças por 20, ou seja, 9 metros por 44 de fundo, na Rua 7 de Setembro, onde estavam construídas duas casas com 3 portas e uma janela, de acordo com a escritura. A propriedade confrontava com “terrenos da Matriz”, Giacomo Frattini e Dameão Vergueiro. 

Em 23 de julho de 1913, Mariano Del Giganti compra mais um terreno próximo à Igreja Matriz, com 16 metros de frente para a Rua 7 de Setembro por 44 metros de fundo, cuja casa tinha o nº 21 daquela rua. O terreno era vizinho do anterior. 

Algum tempo mais tarde, em 11 de dezembro de 1914, os proprietários Mariano Del Gigante e Francisco Chinnici alugam, de Archangelo (ou Archanjo Panhoca) uma área de aproximadamente um alqueire, para instalação de “fábrica de fogos de artifícios e pólvora”, situado entre propriedades de Antonio Manoel Pereira, Archangelo Panhoca e a estrada para Rio Claro. Supõe-se que esta área deveria abranger um local entre a atual Rodovia SP-316 e a Vila Botion. No mesmo dia, criam, através de escritura pública, a “Sociedade de Capital e Indústria Del Gigante & Chinnici”, com capital de Rs. 1:500$000, para “fabricação de fogos de artifício e pólvora”. 

No ano seguinte, em 26 de março, Mariano Del Gigante adquire, sozinho, uma casa na Rua 7 de Setembro nº 27, próximo ao terreno adquirido dois anos antes, com terreno de 2 braças (4,4 m) por 44 metros, que confrontava com propriedades de seu sócio Francisco Chinnici e “terrenos da Câmara Municipal de Limeira”, provavelmente o Largo da Matriz. Sete meses depois, em 26 de outubro, Del Gigante adquire mais três metros na mesma Rua 7 de Setembro, dizendo confrontar com o outro terreno de sua propriedade e o “terreno das Escolas Reunidas”, onde depois foi construído a EMEF “Coronel José Levy”, antigo Grupo Escolar de Cordeiro. 

Ao mesmo tempo em que Baroni vendia suas propriedades, os sócios registravam contratos de “locação de serviços” com dois pyrothecnicos, Paschoal Pane e Jordão Brendaglia, além de outro de “prestação de serviços” com Luiz Esteves, mas para trabalho na fábrica e com representação mensal. 

Os terrenos da Rua 7 de Setembro foram logo vendidos: em 16 de abril de 1919, Mariano Del Gigante e sua esposa Catharina Lupo, qualificados como “industriais”, venderam a Braz Vita Primo, qualificado como “negociante” uma área de 7,44 m por 44 m de fundo, confrontando, dentre outros, com o “edifício para as Escolas Reunidas”. Sobre os percalços para a construção das Reunidas, recordem-se outros artigos nossos publicados na imprensa local. 

Em 3 de outubro de 1919, o sócio Francisco Chinnici compra, de Francisco Mascarin e Margarida Ferro, residentes no Bairro do Tatu, em Limeira, uma área de 6,5 por 44 metros, situada na Rua 7 de Setembro nº 66, esquina da Rua Saldanha Marinho, contendo uma casa de “uma porta e duas janelas”. O nome de Mascarin  já foi citado neste texto, e os confrontantes comprovam: o terreno era vizinho de “A. Baroni & Cia.”. Confira acima. 

Em 27 de fevereiro de 1920, Francisco Chinnici arrenda, do Capitão Joaquim Manoel Pereira,  uma parte de 3.390 m2 por “7 anos e 8 meses” de uma área localizada na Estrada de Cascalho, que confrontava com a estrada de ferro da Companhia Paulista e com os herdeiros de Carolina Ferreira Vieira. No mês de setembro do mesmo ano, Mariano Del Gigante compra um terreno na Rua 7 de Setembro, esquina da Rua Santos Dumont, com 34 metros de frente, confrontando com herdeiros de Lourenço Biscaro, Batista Stocco e João Luiz Palaio. 

Alguns meses depois, Del Gigante vende a seu sócio Chinnici duas casas situadas na Rua 7 de Setembro, que confrontava com os fundos da Igreja Matriz e herdeiros de Giacomo Frattini. Seu vizinho João Luiz Palaio compareceu como testemunha. Segundo informações recuperadas através de escrituras, ele trabalho como relojoeiro durante muito tempo no distrito. 

Em 28 de julho, Francisco Chinnici compra uma área de aproximadamente 2.400m2 na Rua 7 de Setembro, esquina com a Rua José Bonifácio, confrontando com terrenos de seu sócio Calogero Chinnici e com “ terrenos que pertencem ao Governo do Estado ou vão pertencer”. Nesta época, a construção das “Escolas Reunidas” estava em um impasse, como pudemos mostrar em artigos anteriores na imprensa local. Alguns meses depois, Francisco Chinnici e sua esposa Maria Brambilla e seu irmão, Calogero Chinnici, com sua esposa Philomena Del Gigante trocaram suas propriedades. 

Os últimos atos recuperados de Chinnici são uma escritura de arrendamento entre a firma “F. Chinnici & Cia.” (e não mais “Del Gigante & Chinnici”) de uma propriedade composta de casa de morada e barracão, com frente para a estrada de Cascalho, confrontando com terrenos do Capitão Joaquim Manoel Pereira e dos herdeiros de Carolina Ferreira, como já citamos acima. 

Desfazendo-se definitivamente de suas propriedades, Mariano Del Gigante, em companhia de sua esposa Catharina Lupo, vendem a José Carandina uma propriedade situada entre as Ruas 7 de Setembro e Santos Dumont, composta de uma residência com 3 portas e 2 janelas para a primeira rua e 2 portas e 2 janelas pela segunda, com 34,5 metros de frente.  A propriedade, como vimos antes, foi comprada em 1920 e abrigou um representativo edifício que foi substituído por um conjunto de lojas comerciais nos últimos anos. 

Por fim, a última referência dos Chinnici em Cordeiro está representada por uma escritura de 19 de novembro de 1928 onde Calogero Chinnici e sua esposa Philomena Del Gigante, residentes em Leme, vendem a João Spoladore e Genoveva Casetta “duas pequenas casas de morada, confrontando nos fundos com a Matriz, no lado direito com Carlos Spanhol e à esquerda com Américo Soares”, tendo o número 23 da Rua 7 de Setembro. Acima registramos a compra desta propriedade. 

Os indícios dos livros de escrituras e dos jornais registram a existência de outra firma de fabricação de fogos: Freire & Cia., cujo proprietário era Manoel de Alvarenga Freire. Os documentos a ele referidos são: uma escritura de prestação de serviços com Antonio Mascarin, representado por Francisco Mascarin (já familiar neste texto), que ganharia 200$000 mensais no período de agosto de 1922 a agosto de 1923. 

Em outubro do mesmo mês, a empresa Freire & Cia assina contrato de arrendamento com Archangelo Panhoca, residente em São Paulo, de um terreno com casa e rancho coberto de telhas para fábrica de fogos de artifício. Como intermediária deste contrato aparece Thereza Baroni Martins, declarando-se de acordo com a transferência. O contrato deveria vigorar até 6 de janeiro de 1925, devido ao original ter sido assinado na mesma data em 1922. 

Em dezembro de 1922, a última referência nos livros de escrituras dá conta da assinatura de uma escritura de “prestação de serviços” entre a firma Freire & Cia. e Domingos Chiarelli, residente em Santa Cruz das Palmeiras, com prazo de 3 anos a 400$000 mensais, para serviços de pyrothecnico. 

O destino desta empresa foi selado por um acontecimento destacado pela imprensa da Capital, especialmente o “Estado de São Paulo”. Em 3 de janeiro de 1925, coincidentemente, alguns dias antes do encerramento do “contrato de arrendamento” citado acima, ocorre uma explosão na fábrica, deixando dois mortos e três feridos. 

Segundo o jornal, às 9 horas deste dia, os edifícios foram pelos ares, ficando somente um monte de escombros. Retiradas as vítimas, foram identificadas como Ovídio Guedes e Stephano Dinardi, mortos e Joaquim Amaro, Nelson Carolino e João Duarte Barroca, gravemente feridos. “Não havendo hospital em Cordeiro, foram os feridos removidos para a Santa Casa de Limeira”, frisa o periódico. 

O correspondente de Limeira detalhou a tragédia, dizendo que às 9 horas ocorrera uma violenta explosão no depósito de matéria colorante da fábrica de fogos, gerando um incêndio que atingiu imediatamente o pavilhão de manipulação de pólvora e um pequeno depósito de inflamáveis, seguindo-se nova explosão. Neste pavilhão, havia dois operários, que fugiram. Após à explosão, diversos operários que iam socorrer os feridos foram atingidos por pedaços de tijolos e madeira, sendo atingidos os citados anteriormente. 

Pelos documentos acima, não podemos confirmar até quando a experiência das fábricas de fogos persistiu em Cordeiro, mas por eles pudemos ter conhecimento de pelo menos uma parte de sua relevante história.
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