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Paulo César Tamiazo
Coluna: Revivendo a História
Publicado: 17/05/2013 às 08:47:22
A Fazenda Ibicaba na imprensa de S. Paulo (1857-1896)

Neste artigo, iremos recuperar mais informações, provenientes das coleções digitais dos jornais “Correio Paulistano” e “Estado de S. Paulo”, sobre fatos ocorridos naquele estabelecimento agrícola, nos quarenta anos em que foram encontrados estes indícios.

A revolta dos colonos de Ibicaba, que teria ocorrido no final de 1856, não parece ter chegado à imprensa paulista, pelo menos na pesquisa realizada. Em 1857, no final de fevereiro, os deputados da Assembleia Legislativa, dentre outros assuntos, discutiram e procuravam entender o que ocorreu na fazenda. O deputado Queiroz Telles, fazendeiro e empregador de colonos, pergunta ao presidente, Conselheiro Nébias, sobre os “acontecimentos ocorridos na colônia do Ibicaba”, acrescentando que não sabia “o que se passava no Rio Claro sobre os colonos”. Reclamou o deputado que, passado o mês de fevereiro, não houvesse notícia oficial sobre o assunto.

Disse o deputado: “Parece-me que o negócio é muito sério: o governo mandou para lá um encarregado, e ainda ninguém sabe o resultado desta comissão: se é negócio secreto, se é negócio reservado, o governo que nos mande reservadamente os necessários esclarecimentos a respeito.”

O deputado Queiroz Telles, como fazendeiro, ressaltou que “não é somente porque tenho colonos, é também principalmente pelo bem da província”. Como solução, sugere a elaboração de um regulamento pela Assembleia, ressaltando que “nos contratos dos colonos há um artigo que os sujeita ao regulamento da colônia; cada fazendeiro faz seu regulamento, e isto é que motiva muitas vezes alguns desgostos”.

Passados cinco anos, a Fazenda Ibicaba retorna ao noticiário, nas páginas do “Correio Paulistano” de 12 de março de 1862, onde se reflete reportagem da “Revista Commercia” de Santos, onde se lia que acabava de chegar, naquela semana, uma máquina a vapor de 8 cv, mandada fazer pelos Srs. Vergueiro & Cia., no Rio de Janeiro, destinada à Fazenda Ibicaba, onde vai ser empregada para facilitar e aperfeiçoar o limpamento do café.”

Geralmente as notícias não muito boas apareciam no espaço reservados a cronistas com pseudônimos. Em 4 de março de 1864, “Um Limeirense” opina sobre a situação que deveria haver na fazenda. Reclamando de um “atrevido e impudente alemão, que prevalecendo-se daquele emprego (...) ousa impunemente cometer atos irritantes e atrevidos, zombando das ordens legais das autoridades (...) num local onde “abunda uma população de homens de costumes ordinários e de várias
nações”.

O relato anônimo assevera que “somos informados que a vítima fora ainda curtir as dores do azorrague num tronco (...); ressalta “os atos de oposição de ordens legais praticados pelo administrador”. Afirma o cronista sob pseudônimo: “Na fazenda do Ibicaba mata-se, fere-se e praticam-se todos os atos de maior cinismo sem que as autoridades possam intervir e nem providenciar”. Foram reportagens como estas que fizeram a literatura sobre a Ibicaba classificar o regime a que estavam sujeitos os imigrantes como “escravidão branca”.

Em outra oportunidade, um articulista sob pseudônimo emite sua opinião sobre Limeira. Em 15 de novembro de 1865, “um seu criado, Astro”, destaca que “a Câmara trabalhou três ou quatro dias, porém não fez nada a benefício deste lugar, até a pequena casa de mercado que estavam fazendo está parada, creio que é por falta de dinheiro (...) melhoramentos não vejo, porém vejo sempre o procurador armado de carranca e saco azul, livros de cobrança de impostos (...).

Mesmo a fazenda Ibicaba sendo conhecida pela sua experiência de utilização de mão-de-obra imigrante, no período indicado só se encontram notícias relacionadas a escravos: em 1870, é reproduzida uma matéria paga, onde “Ch. Perret Gentil”, em declaração original com data de 3 de outubro de 1861, confirma o uso do “Unguento Morel” para tratamento de “feridas antigas e novas, ulceras, etc.,” de “muitos escravos que paravam no hospital com chagas velhas, que puderam logo ir para o serviço” usando este remédio. Tudo normal, só se estranha o Consul Geral da Suiça, Charles Perret Gentil, ter assinado esta declaração, sem se referir a nenhum imigrante.

As referências à Fazenda se encontram, nos anos seguintes, somente quando se anunciam fugas de escravos, oferecendo-se gorda recompensa para sua recuperação. Até o fim da década de 1870, são também ressaltados falecimentos e suicídios de escravos originários da Ibicaba, que eram noticiados em virtude de serem enterrados nos cemitérios da Capital.

Durante a década de 1880, os proprietários da Ibicaba, com seu bom relacionamento, conseguiam que a fazenda surgisse no noticiário através das visitas ilustres recebidas: do viajante alemão Goegg, que participou, junto com outros fazendeiros, da inauguração de uma nova máquina de beneficiar café, construída nas oficinas “Mac Hardy”, de Campinas; do viajante francês Louis Couty, cujas impressões publicadas receberam contestação de Vergueiro no “Correio Paulistano”; do viajante chinês Tong-Sing-King, acompanhado de seu secretário “Mr. Butler”, que visitaram fazendas em Campinas, Araras e Rio Claro.

Neste caso, conforme reportagem de 26 de outubro de 1883 do “Correio Paulistano”, fica clara a existência de um regime misto de utilização de mão-de-obra. Diz o cronista anônimo: “os viajantes apreciaram extraordinariamente o modo pelo qual são tratados os colonos, e bem assim ficaram agradavelmente impressionados com a maneira de lidar com os escravos (...), estando todos debaixo de um sistema que não aquele que se propala ao longe”. Notável é a descrição do emissário do viajante: “Mr. Butler, que é homem de cor (...), menciona (...) que era-lhe muito agradável o modo de tratarem-se ali os homens de sua cor.”

No início do ano de 1888, onde a escravidão já estava desestruturada em todo o país e também em São Paulo, o “Correio Paulistano” de 12 de fevereiro publica os debates da Assembleia Legislativa, onde foi destacado que “dois pretos estavam em um wagon de segunda classe, em completo estado de quietação (...), quando “o comandante aproximou-se deles perguntando de onde eram. Ao responderem que eram do Ibicaba, receberam ordem de prisão”, mesmo numa situação onde “não havia ameaça, não havia tumulto, não havia perturbação da ordem pública”.

No mês de junho de 1888, já extinta a escravidão, o “Correio Paulistano” registra um assassinato ocorrido na Fazenda Ibicaba, onde os “empregados” Marcos Rodrigues e José “de Tal” envolveram-se em uma briga no dia 13 daquele mês, sendo que o primeiro matou o segundo a facadas. Registrou a reportagem que o criminoso era “espanhol e contava com apenas 18 anos”. No Estadão de 15 de junho, o mesmo fato é destacado, dizendo-se que o agressor tinha somente treze anos.

O fim da década de 1880 representa também o fim da era Vergueiro. O Estadão de 7 de novembro de 1889 publica anúncio do Juízo de Órfãos de Limeira, comunicando que no dia 16 do mesmo mês, ao meio dia, seria realizado o leilão dos bens pertencentes à herança do Senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro e de sua mulher Dona Maria Angélica de Vasconcellos Vergueiro, a requerimento do inventariante.

Os bens em praça são assim descritos: casa de máquina de beneficiar café, despolpadores, salas para escolha de café, escritório, sala de aparelhar madeira, serras circulares e vertical, moinhos, vapores e casa para guardar madeira e acessórios, um terreiro para café, com trilhos e wagons; uma casa de moradia, sobrado com pomar e jardim; casa com duas salas e um quarto forrado e assoalhado; uma casa para bilhar, cocheira, depósito, rancho para tirar o leite, casa para carneiros, casa com banheiro de mármore, casas para depósitos, casa para padaria coberta de zinco, casas para colonos, tulha nova para café, tulha velha, chiqueiro, ranchos, casa de vigia, uma “casa para hospital”, casas para cozinha, torre com relógio e sino, catorze casas de madeira para colonos, casas para colonos e monjolos, avaliados em mais de 115 contos de réis.

Continua o edital informando outros bens em leilão, compostos de: 27 casas para colonos, 20 casas para colonos de qualidade inferior; casa de madeira para moradia do diretor da colônia e outras casas, avaliadas em mais de 38 contos de réis. Faziam parte do lote mais casas de palha para colonos, paiol coberto de palha, casas cobertas de telhas para colonos; três monjolos com casas cobertas de palha e cinco casas de palha para colonos.

Compreendia a propriedade também 50 alqueires de terras, 3.000 pés de café novos, plantações com 32 mil pés, 104 mil pés, 6 mil pés, 12 mil pés e 2.500, espalhadas por toda a fazenda. A parte da Fazenda chamada Tetéa contava com 16 mil pés de café velhos, 6.000 com quatro anos, 3.500 cortados, 7.000 com três anos, 9.000 de dois anos, falhados e a Fazenda Saltinho, com 7.000 pés de quatro anos.

Outras áreas compreendidas na propriedade eram: 125 alqueires de terra, 25 alqueires de mato próximo à Fazenda Laranja Azeda; 10 alqueires entre o valo e o cafezal; 25 alqueires unidos ao cafezal; 5 alqueires nas divisas do Morro Azul; 10 alqueires na divisa com os Ferraz, além de 96 alqueires da Fazenda Tetéa, de terras baixas e ordinárias; no Saltinho, 40 alqueires com alguns pés de café e capoeiras, para o outro lado do Ribeirão Tatu, além de matas existentes nas divisas de Bento Manoel de Barros e no então Núcleo Colonial do Cascalho. O total dos bens em leilão compreendia mais de 470 contos de réis.

Este leilão parece ter fracassado ou suspenso, pois o “Estado de S. Paulo” de 16 de janeiro de 1890 publica novamente a relação de bens em leilão, acrescentando todos os bens móveis que estavam compreendidos dentro da propriedade. Infelizmente, pelo mau estado do original digitalizado e disponibilizado na internet, não conseguimos saber os detalhes de todos os animais e apetrechos postos em praça, mas conseguimos ler somente a linha em que se dizia: “3º quarto: 1 cama francesa com colchão”. Desta vez, o leilão de tudo o que havia na fazenda atraiu compradores: a firma José Levy & Simão e o Coronel Flamínio Ferreira de Camargo, de Limeira.

O ato que inicia a segunda fase da Fazenda Ibicaba está representado no anúncio do “Estado de S. Paulo” de 22 de julho de 1896, onde o Coronel Flaminio Ferreira de Camargo comunica que, nos anos anteriores, realizou sociedades com “José Levy & Simão”, para exploração da fazenda Ibicaba, que teve começo em 20 de janeiro de 1890; com “José Levy & Simão e Francisco José Coelho, para exploração da casa de comissões e consignações em Santos, iniciada em 14 de junho de 1894; para exploração de comércio na mesma cidade, com José Levy & Simão, Alberto Kiesner e Alfredo B. de Barros, a partir de maio de 1895.

Na segunda parte do anúncio, o Coronel Flamínio esclarece que vendeu sua parte na Fazenda Ibicaba por mil contos de reis; que em 25 de maio de 1894 houve a saída do sócio Coelho; que em 15 de janeiro de 1896 retirou-se da outra sociedade o Sr. Alberto Kiesner, ficando a responsabilidade somente a cargo de José Levy & Simão e Alfredo de Barros, ressaltando ao final que “nada deve a quem quer que seja, mas querendo evitar reclamações, convida a todos que se julgarem credores, que apresentem-se na sua casa no prazo de quinze dias as possíveis reclamações”.

Esta segunda fase tem uma história muito significativa a ser recuperada e se encerra somente na década de 1970, quando a maior parte da Fazenda passa a seus atuais proprietários.

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