‣ CREATIVE SITE: Desenvolvimento de Sites | Lojas Virtuais | Sistemas Web | Hospedagem de Sites - SOLICITE SEU ORÇAMENTO
Buscar Notícias:
Paulo César Tamiazo
Coluna: Revivendo a História
Publicado: 03/05/2013 às 09:56:33
A Fazenda Ibicaba e a família Vergueiro em dois jornais de São Paulo (1870-1894)

A Fazenda Ibicaba, estabelecida há quase 200 anos no local que hoje pertence ao município de Cordeirópolis, passou a ser conhecida nacionalmente a partir do final da década de 1960, quando o prof. José Sebastião Witter, sob a orientação do grande historiador Sérgio Buarque de Holanda, na USP (Universidade de S. Paulo). Entretanto, conforme destacado pelo autor, todo o seu trabalho, equivalente a uma dissertação de mestrado, foi feito a partir de um só livro, correspondendo ao período de 1861 a 1865, de registro de contas correntes de imigrantes.

O interesse do meio acadêmico quanto à experiência de “introdução do trabalho livre” no contexto da escravidão diminuiu ao ponto de não haver mais nada, pelo menos numa pesquisa realizada  na internet, que acrescente ao que já foi divulgado desde aquela época, na historiografia nacional e nos materiais e livros didáticos, nos quais a geração atual tem estudado, dando destaque à experiência de neutralização parcial da escravidão após o fim do tráfico negreiro.

Não cabe na abrangência deste texto analisar a “historiografia local”, desenvolvida nos últimos anos, uma vez que não está comentando o acervo ou a produção criada a partir destas pesquisas, no Brasil e no Exterior. Queremos, nesta oportunidade, recuperar, a partir das coleções dos jornais “Correio Paulistano” e “O Estado de S. Paulo”, disponibilizadas na internet, algumas informações sobre o que foi noticiado com relação à Fazenda Ibicaba e ao Comendador José Vergueiro, seu proprietário durante trinta anos. 

Em 11 de outubro de 1870 o jornal “Correio Paulistano” pública extenso artigo de autoria do fazendeiro José Vergueiro, visando provar as vantagens da imigração em relação ao trabalho escravo, cujo fornecimento de mão de obra estava sendo suprido pelo tráfico interno. Vergueiro afirmava que “a substituição dos braços do trabalho entre nós não é somente uma questão de moral e de justiça, mas igualmente uma questão de prosperidade e fortuna para os próprios agricultores.”

Para expor as bases do seu raciocínio quanto à produtividade e lucratividade do trabalho dos imigrantes, Vergueiro usa dados sobre a produtividade das famílias de imigrantes de sua fazenda durante o período da safra 1869-1870. Dentre as famílias citadas nominalmente, com sua colheita e produtividade por membros envolvidos, constam: Carlos Kuhl, Gotfried Obstfelder, José Burger, Bernardo Betting, Jacob Roland, Carlos Gustavo Busch, Pedro Dupré, Jacob e Mathias Levy e Francisco Clos, além de diversas famílias de origem portuguesa. No sentido econômico, mostra que os custos para introdução de 100 imigrantes, entre passagens desde Santos e transporte até as fazendas, montam em Rs. 12:000$000 (doze contos de reis), ao contrário de 100 escravos, que custam 200:000$ (duzentos contos de reis), ou seja, 2:000$000 (dois contos de reis) cada, incluído o imposto.

Demonstrando o baixo custo da introdução do imigrante, Vergueiro solicita ao Governo Provincial que sejam gastos, com o reembolso das despesas de viagem, valores entre 10 e 20 mil contos de reis, suficientes para a introdução de 100 a 200 mil imigrantes.

Durante alguns anos, não houve mais notícias do comendador, até que ele passou a ser notícia em virtude da penhora de sua fazenda, para pagamento de dívidas. Durante uma semana, Vergueiro e seus credores discutiram na imprensa os diversos aspectos envolvidos na cobrança realizada pelo London Bank de dívidas da Vergueiro & Cia., dentre eles o uso de força policial, para que a decisão fosse cumprida. A questão continuou até a metade de julho, quando parece ter sido resolvida.

 Entretanto, neste mesmo ano, em abril, o “Diário de S. Paulo” publicou matéria paga do “Anglo Brazilian Times”, jornal publicado no Rio de Janeiro de linha “liberal e abolicionista”, segundo o pesquisador Miguel Alexandre de Araujo Neto, professor do University College em Londres, que destaca:

“nos primeiros dez anos de publicação a estratégia emancipacionista/abolicionista defendida pelo editor consistia em persuadir o governo brasileiro a liberalizar completamente a política imigratória nacional, de modo a canalizar para cá parte do fluxo de emigrantes que saíam da Europa (e sobretudo da Irlanda) para os Estados Unidos. Se esse fluxo, em virtude da adoção de políticas liberais, fosse suficientemente incrementado, e imigrantes livres europeus se estabelecessem, àquela altura, no Brasil, a mão-de-obra escrava tornar-se-ia obsoleta. Assim, a Abolição da Escravatura poderia ser acelerada.”

Chegando ao debate pela imprensa, vê-se que a origem de tudo é a falta de pagamento das dívidas da firma Vergueiro & Cia., cujos débitos foram sendo rolados com os bancos ingleses no início da década de 1870; em 1875 o Tribunal da Relação do Rio de Janeiro negou pedido dos proprietários da Fazenda Ibicaba, contra um pedido de penhora dos grãos de café “colhidos e armazenados na propriedade”, em função de um acordo realizado em fevereiro do ano anterior, cuja garantia no caso de não pagamento das dívidas eram os “frutos e colheitas da Fazenda”. Submetida a decisão do tribunal, o pedido do “London and Brazilian Bank” foi aceito, concluindo-se que “se deve estender tal sequestro aos frutos colhidos enquanto existirem na Fazenda”.

A família Vergueiro volta a ser manchete nos jornais, tanto no “Estado de S. Paulo” como no “Correio Paulistano”, no final de novembro de 1887, devido à notícia do falecimento de Catharina Vergueiro Brune. Sua história foi divulgada recentemente pela iniciativa de um centro de documentação existente em Limeira, ressaltando que ela era filha de Catharina Drenklen, nascida em 1852, que faleceu logo após a chegada ao Brasil. Comovido com a situação, o Comendador Vergueiro adota Carolina, dando-a seu sobrenome, tendo depois se casado com o então administrador da Fazenda, Detlef Brune. Com ele teve nove filhos e, após seu falecimento, a família voltou para a Alemanha, cujos descendentes lá ainda residem.

Após a venda da Fazenda em leilão, em 1890, o Comendador José Vergueiro segue sua vida. Neste ano, transfere sua concessão de uma estrada de ferro que deveria ligar as cidades de Itu e Iguape para a “Companhia da Estrada de Ferro Sul Paulista”. O “Estado de S. Paulo”, em 17 de janeiro de 1894, comunica o fim de sua trajetória com seu falecimento, destacando a propriedade das fazendas Ibicaba e Angélica e após a perda destas, sua transferência para a região de Eldorado, fundando a “Fazenda Saudade”, além deste investimento ferroviário.

Num momento em que se aproximam os duzentos anos de oficialização das grandes fazendas da região, como Ibicaba, Cordeiro e Cascalho, pensamos que está na hora de que a história destas propriedades seja efetivamente recuperada, através de um esforço de diversos pesquisadores diante de tão grande tarefa.

Últimos Artigos
A Fazenda Ibicaba e a família Vergueiro em dois jornais de São Paulo (1870-1894)
Página anterior
Cordero Virtual - Notícias do Brasil e do Mundo - 2001-2017
Não temos nenhuma responsabilidade por qualquer conteúdo publicado neste site nas quais são citadas as fontes ou assinados.
Proibida cópia total ou parcial do conteúdo deste site sem a devida autorização.
Desenvolvimento de Sites e Lojas Virtuais
Desenvolvimento de Sites e Lojas Virtuais